segunda-feira, 11 de abril de 2011

Antirracional

De nada me lembro das rubras maçãs do rosto daquela noite de outubro nem das tardes de novembro cheias de flores porque era primavera mas as flores só nasciam dos seus cabelos e eu não lembro de esquecer portanto eu não lembro eu esqueço de lembrar de esquecer do long play arranhado sob a agulha que quando começa a repetir não para mais até deixar-me sem ar como nesse texto porque eu recordo e remoo e eu vejo luz personificada um ser humano que é doce tão quanto o opa mas eu estou começando a reconstituí-lo em um mosaico estrelar colando com maresia e eu estou lembrando aos poucos das lacunas nos escritos sem conseguir esconder mas escondendo a viagem aromática compartilhada porque eu me lembro lembro lembro x100 e o meu toca-discos está louco remetendo àquela música que dura mais de vinte minutos porque nenhum LP que eu possuo tem essa duração toda nem a gente teve por isso dançamos em baixa
rotação baixa rotação baixa rotação chiando e rodando ro dan do r o d a n d o

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aos tropeços

Eu quero cair e peço que parem de me segurar.
Do chão a vista é outra.
Quero novidades, aquele café amargo feito em pé e uma colher de chá dada. Outra medida.
Quero que as montanhas venham até mim, Maomé querendo ou não, eu quero.

Eu
quero
parar de
inventar
que sofro.

Portanto, sigo aos tropeços...
Cambaleando, meu problema é sempre olhar para baixo. Eu não caio.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Anti epifania

Ainda que queira, que incida, que grite, que brilhe
Ouse e vais insultar alguém
E ainda que se afogue, vais clamar por alguém
Que sangre, talvez, sujarás alguém
E caso morra, magoarás alguém
Se tu soubesses que os meus maus comportamentos
De tão lúcidos, deverás
Dessa vez à mim, disfarçadamente, alimentando vossa vaidade
Epifania enfadada, já não tão plena
Bem dita seja, já que tanto fez
Mal ditos não sejam meus desejos
Pois, sendo estes simplórios de momentos felizes,
Invejarás.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

In ou prive

Devotar-te apenas uma estação
É longe somente ela de ser justa
És como terras tropicais
Na linha do "equaliza a dor"
Todas são apenas uma
E no enlaço do frouxo abraço
Avanço sem ímpeto
Meu propósito singular de
Encontrar o sutil descompasso
O encaixe não-lascivo
A insatisfação d'outro ser
Em meu instinto pessoal
O de estar a par do lasso
Esgotado e auto-suficiente.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Avarandar

Tenho um dia. Na verdade tive, pois a madrugada é um período indeterminado. Intermédio paradoxal e silencioso morada das almas empoeiradas. Tenho também uma chuva humilde e singela tentando sarar as dores dos corações. Ou inflamá-las. Inflamá-las até que o rugido de uma porta seja capaz de causar taquicardia. Até lembrar-te que o amor está tão próximo de você quanto o Oiapoque do Chuí. Tenho a vergonha do sol, a vontade natural, o soar das ondas do mar infiltrando na areia repleta de conchas multi coloridas. Um dicionário da mais completa calmaria sendo lido durante uma partida de xadrez com as estrelas. Sei que os astros se movem em L. Estou aprendendo também a suspender alguns cadeados. Entre.
Entreaberta mente, as leis da natureza liberam-me do chão. E, sim, estou numa rede cujo balanço desenha o crescente da lua. Nesse meu chão paralelo e avarandado, plantei uma muda de gotas d'água. Gotas estas detentoras de pétalas que sempre, veja bem, sempre se extinguirão em bem-me-quer.
Chove em mim um tanto mais forte agora.
"Ao inferno minhas lamentações de outrora..."

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

sobre o fim do Frankenstein

Ao meu ver, fora muito bem ceifado. Cortaram-lhe nos pulsos, tornozelos, órgãos genitais e o decapitaram. Qualquer parte que lhe fosse útil, entende?
Contudo, ele se manteve vivo pois o coração não fora extraído. E assim, ele bombeava sangue com sua força máxima. O sangue daquelas inúmeras pessoas acumulado.
E, os extremos decepados tornaram-se, de certa forma, uma arma. Os jatos cegavam, mas, antes disso, apavoravam. Enlouqueciam seus mutiladores.
Todos caíram em terra, inclusive ele próprio um minuto depois.
Apenas lamentou-se por terem lhe arrancado a cabeça fora pois o ângulo em que deixaram seus olhos não era lá de todo o melhor para admirar a cena. Suas mãos estavam meio distantes uma da outra para aplaudir. E seus pés...
Ah... seus pés. Dançavam loucamente ao compasso da melodia da morte, enquanto a lua aprovava tudo la de cima. E eu apenas corri antes que tudo isso acontecesse.
Ah, olha só... nem percebi que não soltei de sua mão até agora. Ei, peraí. Onde está meu coração?