domingo, 14 de junho de 2020
abril
30 dias de suspensão das aulas presenciais, mas essa foto foi depois de uma manhã de planejamento de atividades e aulas online, momento em que sempre sinto um vazio e uma insegurança imensa. não há nada romântico nessa adaptação ao home office. é difícil e muitas vezes insustentável, por isso tenho lido muito mais. lido o que me dá prazer, lido unicamente por prazer. fico prostrada no sofá por horas e costumo ter frio. Hudson sempre me traz o lençol e ontem ele disse que tava linda a cena: eu, a revista, as cortinas, a luz. pedi que registrasse e ele fez essa foto bonita, gostei. 30 dias que estamos muito próximos e cada vez mais íntimos, o que poderia ferir dois lobos solitários, mas ainda bem que não. conto pra ele tudo o que leio. ele me conta todo o enredo dos jogos de mundo aberto que joga. e me diz "chore não, mozina", quando percebe que tou usando minhas forças pra segurar o choro, pq sabe que sou dada à psicologia reversa e a ser teimosa. e eu choro. e me faz morrer de rir com as piadas e brincadeiras mais originais que já vi. 30 dias - acordei um pouco assombrada por todo esse tempo. sinto muito por tudo o que o mundo tá vivendo, mas agradeço todo dia pelo privilégio de continuar trabalhando, mesmo com a angústia; e por continuar bem, apesar de algum choro.
sábado, 13 de junho de 2020
sábado, 30 de maio de 2020
diga-me o que lê
quando falo da estrada
e falo apenas disso
quando digo que acordo chorando com uma música
diga-me como me lê
quando passo distraída
dentro do caracol dos meus monstros
que sinto saudades
e revisito e me arrasto qual morador nativo
diga-me, então,
como não violar ferozmente a pele da minha boca
quando falo da estrada
e falo apenas disso
quando digo que acordo chorando com uma música
diga-me como me lê
quando passo distraída
dentro do caracol dos meus monstros
que sinto saudades
e revisito e me arrasto qual morador nativo
diga-me, então,
como não violar ferozmente a pele da minha boca
no dia ante a estrada?
antes de todo sonho, a imagem
da água que ira o mar
frente aos eminentes coqueiros do
Atlântico
onde se embota a vista de um abutre
altura que protege a ave
até que o vento interrompa a sova das
areias
nesta mesma paisagem, engendrar uma
vida
e deixá-la secar tal qual os
peixes
parece possível
como um anjo, o filho se enrosca em
caniços da lagoa
culpa de uma sorte lançada ao clarão
de uma paisagem de nuvens de
estio
há que se sonhar para encontrar o odor
íntimo
sem que se estraguem os dentes,
colecionando os cabelos que embranquecem das pontas à raiz
há que se esquivar da lembrança do
céu
e despertar quando legítimo
estrangular alguns ventres
louvar a voz estridente
forçar o pigarro
e garantir a sucessão do inesperado
há que se reconhecer o absurdo do muro
e da morte no asfalto
e não há mais nada,
só o luto
quarta-feira, 22 de abril de 2020
"há de marcar em fogo o mais vivo da pedra" (hilda hilst)
a origem do mundo
passa pela iniciação de uma pedra
atrito e granito escritos
no breu das cavernas
mata-borrão para quê?
a sobra é o que cria
e este espírito atravessa o excesso
encarnado de luz e calor,
retalhando, feito cortes de papel,
a língua das madalenas
por qual fenda escorre, então, a palavra?
decisão de minerva
eu: pedra e língua
marcada pelo fogo
da descoberta
segunda-feira, 30 de março de 2020
autobiografia
os estojos acolchoados das ciganas vendedoras de joias,
para-choques de caminhão fazem parte da estrada
(a estrada faz parte da estrada)
na rua numerada do bairro numerado, mas este em francês
para a outra cigana cristã descobrir quantos filhos alguma mulher há de ter
com as poucas correntes de ouro que sobraram depois do penhor
colocam-me frente à maciez do perigo,
do que se forja em mente
o vermelho aveludado
do que se forja em mente
o vermelho aveludado
viajamos, pois, quatro mil quilômetros sobre o asfalto
assistindo a todo o tráfico de animais
de pessoas
de buracos
e de frutas
não são cenas românticas,
houve duros conflitos,
quando eu e minha irmã cabíamos no banco traseiro
e fazer parte da estrada faz parte da gente
e fazer parte da estrada faz parte da gente
prostituição e drogas fazem parte da estrada
o sertão dos estados do Nordeste faz parte da estrada
dormir sem saber se acordaríamos vivos faz parte da estrada
bactérias periorbitárias fazem parte da estrada
mijar no asfalto quente faz parte da estrada
comer pão de queijo na parte atravessada das Geraes faz parte da estrada
dormir em Feira de Santana faz parte da estrada
(a Bahia inteira é grande parte da estrada)
para-choques de caminhão fazem parte da estrada
pneus dilacerados, freadas bruscas, capotamentos e grandes tempestades fazem parte da estrada
meus pais fazem parte da estrada
o cachorro, o tatu, as cobras mortas fazem parte da estrada
o asfalto, o calor e a irrigação das grandes plantações de cana fazem parte da estrada
eu faço parte da estrada
(a estrada faz parte da estrada)
se fecho os olhos, sinto ainda todos os cheiros:
do pé da minha irmã
da cana de açúcar
da fumaça dos caminhões
e da carniça
e se ainda tento ir por alguma estrada
tudo isso volta como insurreição, pertencimento
e dívida
por isso descanso meus olhos não mais tremendo as retinas
ausento-me do piche e desta poesia
e sigo foragida
ausento-me do piche e desta poesia
e sigo foragida
domingo, 16 de fevereiro de 2020
virgem
pesquiso
sobre todos que morrem e nascem
em vinte e quatro de agosto
abro o diário da mulher calada -
que não foi neste dia, mas quis bem antes de encarar as bocas gigantes, os planos violentos com rododendros, as traições, os filhos, a faculdade, os anos 50, o 'medo, feio & grande & lastimável', a técnica -
e existe o sono.
o sonho distante,
a genialidade,
o sono,
o metano,
o sono
[ah, sim:
Simone Weil
Getúlio Vargas
o cego Borges e o paulo Coelho]
mas a mulher caquética
acorda adoece pensa
no tempo-palavra enquanto me lembro:
*memórias 1
antes, o forno estralava pois a mãe costumava acendê-lo para afastar os gabirus
o canal do baldo não havia sido reformado
ratos gigantes eram caçados e mortos com vassouras e rodos, os sabres de meu pai
os bichos comiam nossa despensa e nossas portas, salvo a do último quarto, de metal, onde nos escondíamos
para além dos cabos de vassoura quebrados, o desafio era conceber que, antes do verbo,
roedores já estavam lá
*leituras
um dia, a mãe abriu o registro que libera a passagem daquilo que permite a combustão,
umedeceu panos e com eles bloqueou as frestas da porta do quarto de seus filhos
*memórias
tal qual a outra mãe fazia por conta dos ratos
entendo:
as mães têm suas artimanhas para que seus filhos
[não sejam acordados pelo gás inodoro
não sejam engolidos por um 'aborígene do lodo']
possam dormir em segurança
sobre todos que morrem e nascem
em vinte e quatro de agosto
abro o diário da mulher calada -
que não foi neste dia, mas quis bem antes de encarar as bocas gigantes, os planos violentos com rododendros, as traições, os filhos, a faculdade, os anos 50, o 'medo, feio & grande & lastimável', a técnica -
e existe o sono.
o sonho distante,
a genialidade,
o sono,
o metano,
o sono
[ah, sim:
Simone Weil
Getúlio Vargas
o cego Borges e o paulo Coelho]
mas a mulher caquética
acorda adoece pensa
no tempo-palavra enquanto me lembro:
*memórias 1
antes, o forno estralava pois a mãe costumava acendê-lo para afastar os gabirus
o canal do baldo não havia sido reformado
ratos gigantes eram caçados e mortos com vassouras e rodos, os sabres de meu pai
os bichos comiam nossa despensa e nossas portas, salvo a do último quarto, de metal, onde nos escondíamos
para além dos cabos de vassoura quebrados, o desafio era conceber que, antes do verbo,
roedores já estavam lá
*leituras
um dia, a mãe abriu o registro que libera a passagem daquilo que permite a combustão,
umedeceu panos e com eles bloqueou as frestas da porta do quarto de seus filhos
*memórias
tal qual a outra mãe fazia por conta dos ratos
entendo:
as mães têm suas artimanhas para que seus filhos
[não sejam acordados pelo gás inodoro
não sejam engolidos por um 'aborígene do lodo']
possam dormir em segurança
Assinar:
Postagens (Atom)