domingo, 25 de outubro de 2020

O Gênio dos Gênios


Filhas do Seridó oriental,

Rogo:

– Tranquem essas portas,

e não nos acordem enquanto não sejamos

de mal ou menos – pais de um filho

            apenas para escrever

        sobre este filho

 

Então pisaremos no último lajedo,

A ouvir     as     pragas

Vibrando as facas sobre as peles das palavras

            

                        Abra-se a derme:

                        extirpe o belo


Entregue a alma a quem te procura.

 

Quando vier a hora encarnada,

tiro a mirra, enfeito meu colo de alecrim e

sirvo o banquete

domingo, 18 de outubro de 2020

pérola negra

arranje algum sangue, escreva num pano
(Luiz Melodia)
I)
outros tempos,
aquela compressão no peito
desbravando rios do Norte

na bolsa, Steinbeck
e um colar para ela

II)
eis que o curso d'água muda
e leva todas as pedrinhas miudinhas -
jamais usadas escondidas
numa gaveta de calcinhas -
em uma corrente para o Baldo
 
e lá, a linha com os nós nas pérolas,
encaixado um terminal de rosca,
arranha o zigoma saliente e
pesa já tépida sobre o externo

só então a permissão de levar à boca
oprimindo a gengiva dos dentes ausentes 

III)
no pescoço - marcado
por brotoejas e sortilégios -
empertiga-se a dureza da pedra e,
contra o mar, devolve:

jamais esquecer este feitio de doçura 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

quanto pode caber
em um simples corpo
o vácuo?

(há almas pairando)

luzes do que cremos um dia?
aquele ímpeto de jovem por esquecimento?

narrações de histórias trágicas na rede elétrica?
e as despedidas que interrompem os planos?

(ver a Ju casar
fazer tatuagem com a Ju
construir uma casa no meio do mato
U2 com a Ju)

como podem
estes corpos que passam
não se olharem - sempre em temor?

uns pesarosos de silêncios,
outros respirando melhor de bruços

represem o ar!
e leiam palavras sobre as coisas bonitas que ouço

deixe que venham
umas ideias de carinho, 
bênçãos &
roupas folgadas

bons augúrios ainda virão? 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

a estrada paterna de segredos

é aberta a mãos de moça,

zona magnética de tuas partidas

é uma história içada pelo barco,

levada ao coração da floresta

onde se busca a riqueza dos homens

 

das aulas de francês, lembrava-se apenas do mar

e não lhe punha medo a maré cheia, o isopor no ombro, 

muito menos o ancestral sangrador

 

passou a medir o local dos minérios

que pigmentam os enxovais e os livros velhos

encadernados com tecidos de núpcias 

 

no caminho de volta,

confessou-se a um gerente de banco

e descobriu do que são feitas as gentes do comércio

 

os tigres da ira

pedem que não te desfigures,

que fiques a salvo do pólen 

e não receberemos mais as ciganas,

nem as curandeiras,

nem os trotes violentos

 

(eu poderia decorar A Montanha Mágica

para depois te mostrar

como respirar melhor

e prepararia qualquer prato ao thermidor

para te ver lambuzado e triste

nos dias dos teus anos)

 

prometo não brincar mais de Zila nas pedras,

nem catar o coentro da sopa,

nem olhar nos teus olhos

 

desfaço meus caminhos pelo piche,

não fumo mais teus cigarros escondido,

nem leio as histórias policiais

 

vigio para que tua pele não se descole

nem deixe de expelir esse óleo,

liga que fecha teus poros às alergias

 

mas reparas bem:

essa estrada margeada de palma e angelim

ainda não pode ser interditada

sem antes levar a Montmartre pela segunda vez,

ou às águas que te lavem a couraça de óxidos de titânio,

a tratar das manchas

 

e que tu escutes com teu ouvido direito:

há, que te acompanham, um espírito da floresta

e uma arribação de água salgada 

e eles anseiam por tocar,

com a leveza precisa,

em tuas mãos de moça


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

lagoa de extremoz

há, portanto, em cada canto deste mundo

a invenção 

nas porções de águas escuras e doces

tanto mais


aqui, por entre as ruínas da margem

dormem os olhos rutilantes

da píton-pagã


pobres incautos que buscam

suas bases no cálcio

porque nós, que aqui estamos,

por vós nunca esperamos 


ansiamos, sim, pelas jangadas,

numa vigília ao som do sermão de costas,

que, juntas, torçam os ossos as cobras


tracem as rotas desse comboio,

rumo ao grande hotel fechado,

e sonharemos a liberdade

terça-feira, 4 de agosto de 2020

julho ii

tentando manter um registro de pensamentos pós-leitura, porque senão me atropelo em enxaqueca, hoje finalizei Luanda, Lisboa, Paraíso - de Djaimilia Pereira de Almeida - com essa bela pintura na capa de Nelo Teixeira. a @quatrocincoum me apresentou o olhar de Djaimilia na coluna de crônicas de Portugal e, como encantada sempre pelo desacontecimento e pela banalidade do cotidiano, encontrei alguém que escrevia coisas que eu queria ter visto. visto daquela mesma maneira, porque é bem possível. este é um livro desolador, de enredo previsível e não falo isso como algo negativo, porque o que Djaimilia faz com a linguagem é uma coisa genial. me parece que, como um escultor em madeira, são visíveis as lascas de excesso sendo deixadas pelo caminho e essas farpas, o dito e o não-dito, penetram profundamente em nosso coração. o trabalho chega a tanto que tenho a impressão que em cada período, a cada ponto final, ela queria dizer algo. e diz, intensamente poética. hoje, chove com muito vento em Natal, o que conduz facilmente a gente a imaginar o frio e a solidão de Cartola, Aquiles, Pepe, Iuri, Glória, Justina, Neusa e a morte espreitando tudo isso.  quando o professor Dirceu Villa num curso da @acapivaracultural falou do poema em prosa de Baudelaire em Spleen de Paris, "Cada um com sua quimera", essa imagem se sobrepôs aos personagens do romance de Djaimilia. esse peso nas costas e a eterna sensação da espera. estão aí, também, o poema e o Baudelaire, melancólico como qualquer um neste domingo. bem, sejam quais forem as águas ou monstros que nos encarem, é preciso virar as costas para algumas ilusões e voltar pra casa.

sábado, 18 de julho de 2020

julho

há um episódio, na 2a temporada da adaptação da tetralogia napolitana, em que Lila está lendo no pátio do bairro acompanhada do seu filho. nesse momento, surge sua professora primária, a senhora Oliviero, quem outrora projetou esperanças sobre o futuro genial de Lila. neste encontro, a professora pergunta o que ela está lendo e a outra responde que é Ulysses. não o da Odisseia, mas o que fala sobre a vida prosaica. Oliviero pergunta se ela gosta e Lila responde que sim, mas que não está entendendo bem. nesse momento, a maestra diz que ela não deveria ler livros que não entende, porque não faz bem e elas engendram uma conversa triste. a história dessas amigas, Lila e Lenù, sempre me lembra Sílvia, minha amiga genial, com quem compartilho as delícias e amarguras de uma conexão profunda. eu não parabenizei Sílvia em seu aniversário, e isso me pesou a ponto de sonhar com ela nesta semana - um sonho emocionante - e tivemos uma breve conversa esclarecedora. lembrei desse episódio e de Sílvia em vários momentos em que lia Moby Dick. outra conversa que me lembrava constantemente é a que tinha tido com Hudson, quando ele me perguntou há um tempo se era difícil ler os clássicos. rapidamente respondi que não, que dizia mais respeito a disciplinar a leitura e persistir por horas ininterruptas. é como o maratonista, que treina acumulando os quilômetros. assim foi nos momentos em que aprendi sobre os cetáceos, sobre as leis e procedimentos de caça a baleias, a hierarquia nos navios baleeiros e os devaneios filosóficos do narrador (além do exercício de fazer vista grossa ao racismo). e assim, também, finalizei Moby Dick, com essa vista para o mar de outro dia em que estive diante dele. e como revela pouco antes da ruína do Pequod o capitão Ahab: "Porém, deixai-me antes lançar um olhar ao mar (...) Espetáculo velho, velho, e contudo tão novo. (...) É o mesmo... o mesmo para Noé e para mim. (...) Que vista maravilhosa!" Finis. o coração apertado não quer dizer o fim, mas o começo, pois estou viva, assim como Ismael e Moby Dick (e vocês, peixes presos e soltos que leram esse longo post na manhã de sábado, 18 de julho de 2020). isso pode ser um presságio.