quarta-feira, 27 de abril de 2016

urubus passeiam descrevendo movimentos planos
no céu das oito e catorze da manhã
e com a lua ainda no céu
no meu caminho do oeste

então reconheço o asfalto
essa fricção
asfalto, assento, calça jeans, clitóris

chego ao projeto de morte

sem lua,
nuvem
ou cobras atropeladas
o enfeite pendurado
num teto em maceió
com origamis e miçangas laranjas
unidos em nylon e papéis
paralisa

pesquiso o origami tsuru
que é o japão que vou
sempre à hora de ver o longe ou ao teto

pela minha falsa descendência que,

sem a miopia
não existiria

mas para aonde vou sim,

a cada mil anos

terça-feira, 12 de abril de 2016

ouço na música a solidão do vaqueiro
entre os bois

a estrela solitária no anel de xangai

e essa vergonha de ser do litoral
que só tenho o mar
não tenho mais meu monte dourado

matança devia ser uma palavra bonita,
na verdade
como tudo em mim que parecia inexistir
como na caatinga do sertão o retrato
grava morte

mas é vida

tal qual esta que,
você de mãos finas
arou

casa
de ciganas que sabiam amar

e todas elas eram eu

e cantarolo
kukukaya, eu quero você aqui

quinta-feira, 24 de março de 2016

imagine sobrenomes que anunciam
todas as quedas de monomotor

ou alunas que não tive
e que leram (ela leu)
luvas de pelica

suicidou-se

:

a vida tem um amor
que é desembocar coisas
pessoas
objetos
numa via principal

eu desconfio que é a morte
esse ramal
(Depois do seu nascimento não haverá mais lugar para lutas.)
Murilo Mendes 

eu quase choro ao ver
coisas mundanas

[apesar de já ter desgastado o dicionário de comoções]

uma viagem em família
pai, mãe, filho único semi-adulto

os olhos esperançosos dos pais
a qualquer mísero
pobre
vazio
diálogo com esse ser estranho na mesa
o filho


[houve uma preparação e performance do pai
em acreditar falar coisa que matutou por tanto tempo
a coisa mais interessante do mundo
e a conversa emendar-se por horas

não dura]

continuam viajando

esse tipo de amor me mata

sexta-feira, 11 de março de 2016

"Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha." 
(M. Darwish)
"...esta noche angustiosa
llena de dualismos"
(A. Pizarnik) 
consummatum est: 
há solidão em qualquer não-litoral
e por quando passo trêsquatrocinco dias
componho o hábito teu

esquartejo as frutas
recriando teu vulto na cozinha

eu como,
pelo menos,
tua sombra