sábado, 30 de maio de 2020

diga-me o que lê
quando falo da estrada
e falo apenas disso
quando digo que acordo chorando com uma música

diga-me como me lê
quando passo distraída
dentro do caracol dos meus monstros
que sinto saudades
e revisito e me arrasto qual morador nativo

diga-me, então,
como não violar ferozmente a pele da minha boca 
no dia ante a estrada?
antes de todo sonho, a imagem
da água que ira o mar 
frente aos eminentes coqueiros do Atlântico
onde se embota a vista de um abutre
altura que protege a ave
até que o vento interrompa a sova das areias

nesta mesma paisagem, engendrar uma vida
e deixá-la secar tal qual os peixes 
parece possível

como um anjo, o filho se enrosca em caniços da lagoa
culpa de uma sorte lançada ao clarão
de uma paisagem de nuvens de estio 

há que se sonhar para encontrar o odor íntimo 
sem que se estraguem os dentes,
colecionando os cabelos que embranquecem das pontas à raiz 

há que se esquivar da lembrança do céu 
e despertar quando legítimo 

estrangular alguns ventres 
louvar a voz estridente
forçar o pigarro
e garantir a sucessão do inesperado 

há que se reconhecer o absurdo do muro
e da morte no asfalto

e não há mais nada,
só o luto

quarta-feira, 22 de abril de 2020

"há de marcar em fogo o mais vivo da pedra" (hilda hilst)

a origem do mundo
passa pela iniciação de uma pedra
atrito e granito escritos
no breu das cavernas

mata-borrão para quê?
a sobra é o que cria

e este espírito atravessa o excesso
encarnado de luz e calor,
retalhando, feito cortes de papel,
a língua das madalenas

por qual fenda escorre, então, a palavra?
decisão de minerva

eu: pedra e língua
marcada pelo fogo
da descoberta

segunda-feira, 30 de março de 2020

autobiografia

os estojos acolchoados das ciganas vendedoras de joias,
na rua numerada do bairro numerado, mas este em francês
para a outra cigana cristã descobrir quantos filhos alguma mulher há de ter
com as poucas correntes de ouro que sobraram depois do penhor
colocam-me frente à maciez do perigo,
do que se forja em mente
o vermelho aveludado

viajamos, pois, quatro mil quilômetros sobre o asfalto
assistindo a todo o tráfico de animais
de pessoas
de buracos
e de frutas

não são cenas românticas,
houve duros conflitos, 
quando eu e minha irmã cabíamos no banco traseiro

e fazer parte da estrada faz parte da gente

prostituição e drogas fazem parte da estrada
o sertão dos estados do Nordeste faz parte da estrada
dormir sem saber se acordaríamos vivos faz parte da estrada
bactérias periorbitárias fazem parte da estrada
mijar no asfalto quente faz parte da estrada 
comer pão de queijo na parte atravessada das Geraes faz parte da estrada
dormir em Feira de Santana faz parte da estrada

(a Bahia inteira é grande parte da estrada)

para-choques de caminhão fazem parte da estrada
pneus dilacerados, freadas bruscas, capotamentos e grandes tempestades fazem parte da estrada
meus pais fazem parte da estrada
o cachorro, o tatu, as cobras mortas fazem parte da estrada
o asfalto, o calor e a irrigação das grandes plantações de cana fazem parte da estrada

eu faço parte da estrada

(a estrada faz parte da estrada)

se fecho os olhos, sinto ainda todos os cheiros:
do pé da minha irmã
da cana de açúcar 
da fumaça dos caminhões
e da carniça

e se ainda tento ir por alguma estrada
tudo isso volta como insurreição, pertencimento
e dívida

por isso descanso meus olhos não mais tremendo as retinas
ausento-me do piche e desta poesia
e sigo foragida

domingo, 16 de fevereiro de 2020

virgem

pesquiso
sobre todos que morrem e nascem
em vinte e quatro de agosto

abro o diário da mulher calada -
que não foi neste dia, mas quis bem antes de encarar as bocas gigantes, os planos violentos com rododendros, as traições, os filhos, a faculdade, os anos 50, o 'medo, feio & grande & lastimável', a técnica -
e existe o sono.
o sonho distante,
a genialidade,
o sono,
o metano,
o sono

[ah, sim:
Simone Weil
Getúlio Vargas
o cego Borges e o paulo Coelho]

mas a mulher caquética
acorda adoece pensa
no tempo-palavra enquanto me lembro:

*memórias 1
antes, o forno estralava pois a mãe costumava acendê-lo para afastar os gabirus
o canal do baldo não havia sido reformado
ratos gigantes eram caçados e mortos com vassouras e rodos, os sabres de meu pai
os bichos comiam nossa despensa e nossas portas, salvo a do último quarto, de metal, onde nos escondíamos

para além dos cabos de vassoura quebrados, o desafio era conceber que, antes do verbo,
roedores já estavam lá

*leituras
um dia, a mãe abriu o registro que libera a passagem daquilo que permite a combustão,
umedeceu panos e com eles bloqueou as frestas da porta do quarto de seus filhos

*memórias
tal qual a outra mãe fazia por conta dos ratos

entendo:
as mães têm suas artimanhas para que seus filhos
[não sejam acordados pelo gás inodoro
não sejam engolidos por um 'aborígene do lodo']
possam dormir em segurança

terça-feira, 12 de novembro de 2019

entrar,
sentir as pedras ocres e o calor liso
das paredes que nos guardam

ficar,
não entre mis abuelitas que, pelo sangue,
jamais me permitiram palavra

ficar,
com o decoro de que devo conhecer
a irritadiça e sublime mestra

ir,
este rastilho cheio de sulcos e desamparos
de indomável raiva e sossego

itinerário para as cinzas

o domingo de nossos dias
preenche o que ouvimos:
sons desconhecidos e acertados
na escuridão oblíqua da sala de estar

o pouco de duran duran,
de café,
e de suede

*
neste dia de nossas vidas
qual clichê doce novembro
transmuta-se em um quê de glória eterna
e também de despedida

o tanto de nostalgia,
incêndios,
e de retinas encarnadas

*
o vale do pitimbu marcou nossos carros e
brônquios,
em uma irreconciliável
ternura

no entanto,
o cenário de buracos, serras, pássaros e árvores
começa, então,
seu itinerário para as cinzas