sexta-feira, 21 de agosto de 2020

lagoa de extremoz

há, portanto, em cada canto deste mundo

a invenção 

nas porções de águas escuras e doces

tanto mais


aqui, por entre as ruínas da margem

dormem os olhos rutilantes

da píton-pagã


pobres incautos que buscam

suas bases no cálcio

porque nós, que aqui estamos,

por vós nunca esperamos 


ansiamos, sim, pelas jangadas,

numa vigília ao som do sermão de costas,

que, juntas, torçam os ossos as cobras


tracem as rotas desse comboio,

rumo ao grande hotel fechado,

e sonharemos a liberdade

terça-feira, 4 de agosto de 2020

julho ii

tentando manter um registro de pensamentos pós-leitura, porque senão me atropelo em enxaqueca, hoje finalizei Luanda, Lisboa, Paraíso - de Djaimilia Pereira de Almeida - com essa bela pintura na capa de Nelo Teixeira. a @quatrocincoum me apresentou o olhar de Djaimilia na coluna de crônicas de Portugal e, como encantada sempre pelo desacontecimento e pela banalidade do cotidiano, encontrei alguém que escrevia coisas que eu queria ter visto. visto daquela mesma maneira, porque é bem possível. este é um livro desolador, de enredo previsível e não falo isso como algo negativo, porque o que Djaimilia faz com a linguagem é uma coisa genial. me parece que, como um escultor em madeira, são visíveis as lascas de excesso sendo deixadas pelo caminho e essas farpas, o dito e o não-dito, penetram profundamente em nosso coração. o trabalho chega a tanto que tenho a impressão que em cada período, a cada ponto final, ela queria dizer algo. e diz, intensamente poética. hoje, chove com muito vento em Natal, o que conduz facilmente a gente a imaginar o frio e a solidão de Cartola, Aquiles, Pepe, Iuri, Glória, Justina, Neusa e a morte espreitando tudo isso.  quando o professor Dirceu Villa num curso da @acapivaracultural falou do poema em prosa de Baudelaire em Spleen de Paris, "Cada um com sua quimera", essa imagem se sobrepôs aos personagens do romance de Djaimilia. esse peso nas costas e a eterna sensação da espera. estão aí, também, o poema e o Baudelaire, melancólico como qualquer um neste domingo. bem, sejam quais forem as águas ou monstros que nos encarem, é preciso virar as costas para algumas ilusões e voltar pra casa.

sábado, 18 de julho de 2020

julho

há um episódio, na 2a temporada da adaptação da tetralogia napolitana, em que Lila está lendo no pátio do bairro acompanhada do seu filho. nesse momento, surge sua professora primária, a senhora Oliviero, quem outrora projetou esperanças sobre o futuro genial de Lila. neste encontro, a professora pergunta o que ela está lendo e a outra responde que é Ulysses. não o da Odisseia, mas o que fala sobre a vida prosaica. Oliviero pergunta se ela gosta e Lila responde que sim, mas que não está entendendo bem. nesse momento, a maestra diz que ela não deveria ler livros que não entende, porque não faz bem e elas engendram uma conversa triste. a história dessas amigas, Lila e Lenù, sempre me lembra Sílvia, minha amiga genial, com quem compartilho as delícias e amarguras de uma conexão profunda. eu não parabenizei Sílvia em seu aniversário, e isso me pesou a ponto de sonhar com ela nesta semana - um sonho emocionante - e tivemos uma breve conversa esclarecedora. lembrei desse episódio e de Sílvia em vários momentos em que lia Moby Dick. outra conversa que me lembrava constantemente é a que tinha tido com Hudson, quando ele me perguntou há um tempo se era difícil ler os clássicos. rapidamente respondi que não, que dizia mais respeito a disciplinar a leitura e persistir por horas ininterruptas. é como o maratonista, que treina acumulando os quilômetros. assim foi nos momentos em que aprendi sobre os cetáceos, sobre as leis e procedimentos de caça a baleias, a hierarquia nos navios baleeiros e os devaneios filosóficos do narrador (além do exercício de fazer vista grossa ao racismo). e assim, também, finalizei Moby Dick, com essa vista para o mar de outro dia em que estive diante dele. e como revela pouco antes da ruína do Pequod o capitão Ahab: "Porém, deixai-me antes lançar um olhar ao mar (...) Espetáculo velho, velho, e contudo tão novo. (...) É o mesmo... o mesmo para Noé e para mim. (...) Que vista maravilhosa!" Finis. o coração apertado não quer dizer o fim, mas o começo, pois estou viva, assim como Ismael e Moby Dick (e vocês, peixes presos e soltos que leram esse longo post na manhã de sábado, 18 de julho de 2020). isso pode ser um presságio.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

junho

fiz uma foto com livro, porque acho que esse é o meu melhor ângulo. jarid arraes conta histórias tão bem que retornei ao cariri e àquela estátua imensa do padim ciço, mas o mais mágico mesmo foi preencher as paisagens desconhecidas com o alecrim, o pitimbu, com apodi e o espanto dos redemoinhos em dias quentes em ambas as margens da BR 405. pensava que era um furacão, né, menina? saí do sofá e senti os meus pés queimando - era o sol que entrava pela janela e eu tentava permanecer, porque ouvi dizer que basta uma parte do corpo no sol para repor a vitamina d, acho que foi na TV. leiam jarid arraes, vejam menos TV, a luz azul esgota qualquer um. tirem fotos com livros. como não quero parar em casa, vou começar a ler moby dick porque soube que o melville escreveu em isolamento, com apenas um arpão ou uma âncora em cima de sua mesa, não lembro bem dos detalhes, foi matilde campilho quem contou. porque também revi pela milésima vez amélie poulain e só então reparei que o nome do peixinho suicida dela é cachalote. e tem a Bíblia. o wong kar-wai. o rodrigo campos. o júlio verne. dani. os vários fragmentos de um sub-bibliotecário de um sub-bibliotecário. e a educação infantil, quando essa baleia passou a permear meu imaginário. pois que eu possa chamar de Ismael o narrador que me espera. quero mais histórias, que tá pouco. ⚓

sábado, 20 de junho de 2020

reinventaram a linha do equador
e todos os meridianos foram deformados
pois há paredes infiltradas a qualquer hora

e a pensão dos vírus
tem este cheiro frio de cá

parece-me que os dias no trianon voltaram
aqueles de quando um bigode acumulava cinzas e delírios
quando também se lia bukowski até a madrugada achando o máximo
e espiava a rua vazia pela janela da cozinha
enquanto a primeira das mulheres murmurava seu rosário

reinventaram os detalhes:
a farmacinha do banheiro único
a clarabóia furada por onde escorre um fio de vento congelante
o tapete antiaderente
(os batons cintilantes, grampos dourados e a embalagem laranja de minâncora)

este cheiro frio
não é de cá:
veio migrando 
de roupas velhas e vícios acumulados
até esta linhagem que inventa teu nome mais longo

a geografia é afetiva
não mais que as marcas do um rosto que se lembra
sem plenitude do ângulo, sem olfato

oxímetro quebrado

há, então, que se pichar as linhas,
afiando suas pontas
e expulsar este odor do ausente,
borrifando para cima
balas de um sul quente

domingo, 14 de junho de 2020

maio p. 2

um dia exatamente igual ao outro.  alguns lampejos de outras ideias que não o tal microorganismo. a primeira veio domingo, ailton, o krenak que em 1987 pintou o rosto com tinta preta de jenipapo durante a assembleia constituinte – um vídeo que você provavelmente nunca viu –, com sua sabedoria ancestral, usou uma das metáforas mais interessantes que já ouvi: se você tem uma gaiola de porcos, não pode esperar o canto dos pássaros. fiquei atônita, enquanto o cientista e a repórter visivelmente não o escutavam. segunda-feira veio com a poeta de literatura pretística que perguntou por que nunca me autorizo/ autorizam a ser escritora, mesmo escrevendo há mais de dez anos. fiquei atônita e então escrevi alguns versos que não entendi. a terceira veio ontem, na fala de uma pessoa que compartilha suas leituras no youtube, eu estava procurando sobre j. joyce e ela disse assim sobre Ulysses: você tem que enfrentar esse livro como ele de fato é: um livro – objeto de leitura a ser iniciada e finalizada, não como um monstro. fiquei atônita e terminei de ler Retrato de um artista quando jovem. em algum momento o pensamento de Dedalus “era uma penumbra de dúvida e autodesconfiança, iluminado em certos momentos por clarões de intuição” e eu fiquei feliz com a coincidência. pelo caminho da piedade e do terror, tive muitos pesadelos que revelaram todos os meus medos - o cientista sidarta disse que qualquer sonho transforma a vida da pessoa e, claro, fui transformada. há que se lembrar do simples e como também o jovem Dedalus, “desejo apertar em meus braços o encantamento que ainda não veio ao mundo”. será isso possível? será que encontraremos finalmente os pássaros que cantam? ou o tal coração selvagem de Clarice? desculpa tantas perguntas, sou ainda muito jovem e tenho tempo para devaneios...

maio

a origem é hilda hilst, a não lida. houve um curso belíssimo, que seguiu com um exercício curativo de escrever um poema, partindo de algum verso dela da foto 2. escolhi "Há de marcar em fogo o mais vivo da pedra." fazia tempo que não me colocava à prova de comentários e considerações sobre algum poema meu. foi bom e gostei. corta. o livreto "três vezes hilda" ficou gratuito e eu queria ler cartas do caio fernando abreu a ela. dentre as maiores belezas, é narrado o dia em que ele conheceu clarice lispector. "ela é demais estranha" e, a meu ver, de uma doçura desconcertante. corta. voltei a assistir a entrevista que ocorreu 10 meses antes da morte de clarice, para atentar a tudo que não tinha visto ainda das outras tantas vezes. "não sou triste assim, é que hoje estou cansada", ela diz. tinha acabado de escrever a história de Macabéa e afirmou que, ali, estava morta e falava de seu túmulo. o entrevistador quer saber o título do livro, mas há 12 possíveis para A hora da estrela. eu amo profundamente a história de Macabéa. corta. faço menção à felicidade clandestina de ler um livro para comemorar o dia do livro. fim, só que não, porque o rótulo de escritora difícil turvou as humanidades. são mulheres, somos mulheres. somos todas pedra, língua e iniciação. como orides fontela, que também é difícil e aniversariou junto com hilda. é com ela que quero terminar essa tour:
"Se vens a uma terra estranha
 curva-te

se este lugar é esquisito
 curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te — és infinitamente mais estranho."