terça-feira, 18 de abril de 2017

eu não sou aquela peça rachada
copo com utilidades de guarda-canetas
estojo de tela que trago na bolsa
sou dura e inteira
posso crer a metáfora de anthem
minha canção dileta
que não diz respeito ao meu território
sou a guerra lutada novamente 
sou tejuaçu, lagarto, pintado
couraça dura e cabeça comprida
rastejo no solo da caatinga
sem lacrimejar:

a verdade é semiárida
chove com ressalvas
no solo rachado que não sou eu

terça-feira, 28 de março de 2017

epopeia de atrasos

olha que me intitulei de meandros
Palavra que aprendi com meu pai, quem viu mais rios e pedras que eu
o todo, pesado, os minérios e das distâncias
dos uniformes sem cor viva, das areias mistas
porque mulher deve ter mais rugas de sorrisos que os homens
ruas que continuam o caminho sem fim das pequenas ondas ao cair da gota no rio
seguem como o ciclo do curso ao desrespeitar as areias
e ampliar a margem, diminuindo o generoso dar-se

porque, olha, me intitulei epopeia de atrasos, fazendo hora como o início do livro de Vigna, adoecendo mães e irmãs, para me ausentar
ou lendo incessantemente imagens ou letras até surgirem as dores no meu centro vital e surgir também uma labirintite quando leio de lado

mas eu queria falar mesmo sobre os meandros de um rio que eu conheço, pois meu pai me falou e eu pesquisei que devem ser chamadas, essas curvas centrífugas dos rios, de meandros divagantes
só saber disso já bastava para a poesia,
mas eu faço hora,
então não basta
enrolo-me e sou assim arremessada na correnteza
com nós nos músculos tensos das costas e do antebraço

[e, ei, toma aqui meu sutiã e faz um filme dele
ou tatua na costela a minha frase
me lembra o verso que estava pronto e esqueci
lê um poeta pobre]

divagante seja depois do seridó, me disseram
o pior lugar desde ciudad del este
e do congestionamento na ponte da amizade
onde os minutos passam em dobro, onde o dinheiro não serve, onde os rios estão secos

só restam as lembranças dos meandros
junto a um pouco de lama e
algum abandono

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

atenção: esse é só mais um amontoado de palavras insones. palavra - lavra: aqui cresce feito erva daninha, com cuidados indevidos de bonsais fruteiras do sul - nunca é época. palavra - lavra: alergia coça garganta, coça olho, palavra dentro coça também. e a insônia é algo tão pouco incidente na minha vida, que eu deveria vir aqui e dizer que ela coça também - pela palavra [igual fio de cabelo que no vento sutil desenha passos de inseto sobre a pele]. pelas palavras que maturam e se perdem [vivo perdendo grampos e tarrachas]; as que você me diz e eu guardo tudo-tudinho com medo do demônio do esquecimento [e já chegamos à conclusão de que o esquecimento é pior que a morte]. todas pelas quais me levanto e elas: - ainda não. [tanto terreno de nadas, deserto] onde estarão os ossos de la que sabé? quem sabe, não jogamos pega-vareta - a mulher lúdica -, ou escrevemos na areia seca com os ossos, lembrando do lápis do mar, .. palavras? qual o que! isso tudo é só o caminho em que deixo cair as palavras-pedrinhas para me lembrar do caminho de casa. como o rio seco pinta a terra com as setas para a nascente. (às vezes é bonito o que um rio - ou sua palavra - faz).

tema para o corpo de h. ao dormir

sobre os espasmos, os que há tempos não sinto
(eram no meu lábio superior)
você, então, teve primeiro na pálpebra
(sobretudo, você tem em seu corpo inteiro)
antes dos blackouts

mas desde então,
quando as noites juntaram-se
surgiram:
mãos que imitam movimento de despertar
pernas que parecem estar a ponto de largada

(você fala que é reflexo da evolução, do alerta primata em cair da árvore)

sinto toda sua circulação quando abraço suas costas
e beijo a noroeste, perto do sinal de carne, intermitente
até os rios de tuas bacias hidrográficas
(e eis o real aviso: as quedas d’água)
desaguarem na planície-algodão

e só fluírem em seu curso calmo, vivo,
criador d’uma rota
até o R.E.M.

filha de estradas, onde emaranham-se juremas e cactos
deixo h. para ver freadas, enquanto ele,
calmo,
compõe poemas pós modernos para tentar decorar meu número de celular
ou acerta despertadores para um pouco mais tarde

e emaranha-me,
entre colchas, apelos e músicas

presos aos limites da derme não alcançamos o bliss assim tão fácil
sobram tentativas de rompê-la, quando já ultrapassadas no que escuto longe em silêncio com sinatra
[because I've got you under my skin
and I like you under my skin]

como acordar para a ordem moderna?

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

tem dias que colocar os óculos
é pior que a expectativa de quando os recolho após sua derrubada no chão
pois todo mundo merecia ver as luzes dos postes das cidades
que estão à beira da BR
com uma miopia de mais de 6 graus

vê-se desde o o ícone do modo gelo dos controles de ar condicionado moderno
até a planta clichê dente de leão
e então mandalas amarelas brancas verdes

então penso como tu tentas salvar-me dos conflitos terrenos
como os coqueiros à noite são ainda mais belos de se observar
e na promessa e desejo do bonsai dessa espécie
tentamos, mundanos

mas é só no tirar dos óculos e no olhar pro horizonte durante a noite
que me emociono, após poemas em branco
por quanto tempo?

o borrão que coteja uma fome de falar
mas sobretudo de ouvir
se estou perto ou longe de saltar do ônibus
e continuar correndo
longe,
pondera,
longo,

todo esse caminho
para o sal

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

"não choreis por mim; chorai antes por vós mesmos"
Lucas, da Bíblia, citado por Carolina de Jesus 
agora que tudo é uno
então que,
como tudo o que some
estão, também, a caneta da poesia e o estar só

vejo no alto da serra de santana a denúncia
do parque eólico preenchendo-a
[e a força da pedra que já não é só, pois a pedra de nascença entranha a alma? e a alma é outro]

ou na comida do dia,
a arbitrariedade do tabasco em todos os talos e o arroz
[tão ralos são os secos, cobertos de sua cor verde tabasco]

a solidão das coisas, tão violadas quanto a das pessoas
a imensidão das hélices em ponto de se tocarem,
tantos brincos sobre a serra
tanto verde sobre o árido
tanto, tanto


não choreis, pois
nunca uma lágrima vem só