quinta-feira, 19 de abril de 2018

os olhos de adélia naquela ladeira

os olhos de adélia naquela ladeira
para adélia danielli.

era são joão perto do campus
adélia olhava com visgo pra frente
seu cigarro amarelando os dedos
(afronta ao meu moralismo raso)
no meio do escarcéu quadriculado de pessoas que sequer sabem de onde vinha todo o milho caro que enganavam os pós-modernos

há dias lembro de adélia sem que ela saiba
sem que eu não morra por não dizer a palavra

evito ler adélia, pois quero aquela lembrança
que me salvou da agorafobia
e me devolveu a pressão da artéria

ainda recorro à adélia na multidão
para encontrar a calma
amarela e preta
três anos depois

adélia: matéria de sal
sob a língua

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

sequência continuação


V)
sei dos pormenores de estar só:
a energia elétrica nas tomadas da casa fazem pequenos ruídos
nunca há o silêncio

hoje meu ouvido pulsa um batimento independente
do coração
expressão máxima da dura-máter, cabeça concreto, cansaço míope,
nome essencial

estar só é deitar, ouvir o ruído solar,
(o dia é pior do que a noite)
feito toda uma Guernica devastada
em descanso profundo de pernas e
linguagens

sei do prazer de estar só
e isso basta para não abrir a portinha
aos 50 anos

sequência continuação

IV)
há um vulcão tão grande quanto H.
que tento acompanhar
na violência do não-ciúme
como o pouso incessante das moscas onde não deveriam
nas troças escondidas:
toda uma munição roubada
e os tiros pra cima que voltam

porque H. é gigante quando fecha os olhos
quando se torna meu semelhante
quando dança na cozinha

quando trabalha
para amenizar os traumas dessa massa pesada
também
e escuta, dorme, morre, acorda, descansa, tatua

desvela-se em maciez,
vê a terra e o monte de Vênus
e contém o fogo dentro:

cratera inflama nua

sequência continuação

III)
está acontecendo novamente
pego ônibus
à noite
na iminência de toda uma vida

desponta comigo o sorriso maligno de uma lua amarela
anunciando a descida de cada viajante
e eu por último

eu com fome e por último
com medo e por último
com uma lua que canta sem melodia,
mas não fala:

“fire walk with me”

sequência continuação

II)
encostada à parede,
a garrafa de vidro que guarda as plantas compridas
e artificiais
noutros tempos explodiu em gás
bolhas, demi-seco, rosé
matiz:

a vida da mulher
promessa de estouros passados
sufocada como semente ou lava
d’um vulcão-juíz

sequência continuação

I)
vulcão cor-de-rosa, o macho
tem a mesma cor
da terra batida no solstício de primavera
pr’onde olhei da janela de um ônibus
na estrada de piche antigo

lembra-me ele que a semente dessa terra batida aguarda
mais do que os velhos por serem lembrados

(a semente aguarda sufocada de vento e poeira
protegida do visível,
vive)

as lembranças são sempre as mesmas dos desertos que nunca fui
e dos que sempre retorno

portanto, de pensar,
seridó, oeste ou licancabur,
eis-me lá

sexta-feira, 2 de junho de 2017

como fosse domínio do homem
o pico do cabugi, ou qualquer dos pontos altos da terra
e como se não fosse dar jeito na vida do homem
ela cai e é soterrada como pedrinha que se descola
ou qualquer matéria desgarrada que deve ficar ao chão
jamais no alto

e eu imagino quantas vidas que foram para que o pico do cabugi tomasse a forma
desse projeto de vulcão que nunca sofreu
com o ar quente dos gêiseres
ou o cheiro de enxofre que vem do desconhecido
mas o cheiro confundido com os das tantas raposas sem vida no acostamento
saindo do jovem displicente antagonista das recomendações “não vá”

como se fosse, portanto, domínio do homem
superar a natureza da mulher selvagem que recolherá
os ossos
na base do vulcão-pedra no deserto do sertão, onde os canos de adutoras distraem o passante, e cantará
para seus humores voltarem a correr ao redor
não do pico, mas dos corações parados em volta de um morro com formato de seio

o morro, o bicho morto e a mulher:
domínios por si, nunca do homem