quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

não vieste leve
mas sim como uma febre chikungunya
como uma coceira na sola dos pés
como uma mesa desorganizada

não vieste, ainda, mais leve

que o espaço vazio entre duas palavras
e a fome de meia-hora de sono

não vieste, pois, por terra ou por ar
por ideia,
mar,
ou por qualquer natureza de ser longe

por não vires, que és, ainda que não seja
mais que os que então vieram
o tempo que é meu, as coisas que são minhas, o que quer que planeje:
uma fisioterapia para lembrar

ou seja,

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

(...)

há muito me falaram: as vias correntes e suas esquinas cheias de pequenos jardins, buganvílias e dos poemas para elas feitos quando vim  e venho sempre  ouvir sobre as coisas que caem ou como vinho na camisa mancha, mas nenhuma árvore vez alguma caiu sobre meus pés

dizem que sou o homem que desceu no poço, segurado por uma corda e pela força de desconhecidos ou o familiar que aguardou a lambida no pé d'um cão de rua ou o poeta que jamais aguentaria setenta anos de vida

algo me diz sou o não que se fala e também o que não se fala, que revisita pouco o ar com sons sobre a naturalidade da mudez/ o esforço severo da fala rocha

*
sou o tal-leitor-não-ninguém e sou também o vinho que me destranca ou o vinho que mancha toda a imagem dos que resolvem escrever uma carta de amor, os bêbados que não conseguem deixar a bebida enquanto se tratam de uma psoríase, os jovens que se impacientam ante a paixão. sou esse vinho de não-estanque, mix, torneira que vaza, cálice buarquiano, enfim

awake

o ranho
roço
poço
dorso do corpo
o rastro
casto
vasto
salvo o engasgo
corre
foge
pare:
remela amanhece dura
e amarela

vortex de catatonia

quantas vezes sinto que estou para morrer, e que isso tanto faria, eu aceitaria de bom grado um ataque fulminante, um coágulo relógio bomba na cabeça; as úlceras do figado todas se terminalmente inflamando. então penso em tanto feito inacabado, tanta miragem a mim cega. desisto da morte; às vezes sinto que estou para morrer e a quem deixaria senhas do banco? a quem dedicaria um verso, aquém, ainda preciso dizer a palavra. desisto da morte; às vezes sinto que estou para morrer, ainda que a cabeça não me permita, que o músculo cardíaco não esteja em dia de descanso, o câncer no sangue não venha e não me tome a vida; às vezes ainda sinto que amanhã não sentirei nada mais, mas desdito a desistência; às vezes sinto que já estou Viva; mas o que faço de ser viva é apenas me expurgar, no espaço semântico do agricultor ou do bitransitivo, de idéias maledicentes enquanto penso: não escrevo, entro sempre em um vórtice de catatonia

antessala para dez dias de imagens

vê-se como se sucumbe ao carinho do homem que mata
como as piscinas expostas [imagine o banho das crianças
ou o afogamento da mulher de longos cabelos
ou um tobogã interrompido]
cones abandonados entre jardins

a pichação faz parte do cenário
o abandono citadino à beleza do abandono

e a solidão dos homens que viajam só
que vivem só
o campanário ucraniano de madeira
e o céu visível

o achatamento das gotas
donde chove a cântaros

um puma de cobre, os irmãos grimm visitando a casa de mila
em doismilequinze

mas o ar.
e as calcinhas como algemas de auxilio.
e as mãos sem as linhas.
e os esquartejamentos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

quatro braços de areia (com pedras leão)

faz-se mosaico do deserto
mas como seria possível
a imagem é a mesma

dunas alaranjadas
dunas alaranjadas

salvo alguém a atravessá-lo
então faz-se sombra e anula-se a solidão dos grãos
e se alguém atravessa o deserto
é mesmo que uma ofensa ao caminho
ofensa à natureza íntima do ser grão
da respiração do deserto
que é só, não há sombra não há homem

mas quando
há homem e há braços de areia
que se desfazem nos abraços

tudo se move, mas não se demove

movimento sempre
e sempre que me esqueço
e, se paro, não me mexo
morro...

até o morro se mexe
duna, o karma na areia se risca:
move-diça
e danças, danço e vamos

por isso aqui em minha amnésia
não posso esquecer de andar
se eu parar
meu mundo vai se acabar...

(ou apenas o deserto acabará
pois os espaços vazios juntos
somam-se em um novo mar)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

sophia e natan deitados
mortos e encaixados
com um livro de emily dickinson entre as pernas:
ato que garante o poema

o poema da larga cama, dos corpos
do que a maldição se revela
deitados, com pincéis de craiom
depois de poucos copos
de um terrível e indigesto
bourbon


sophia e nathan deitados mortos encaixados

sobre a lembrança de velhos; ecléa bosi, 1979

dona alice, amuada,
depois de um dia de revolução
senta-se em casa, 
faz café, oferece, 
mas diz que está fraco
(como sempre)
e recorda outra revolução

hoje não teme, não geme
quando a luz apaga

mas na memória se lembra,
dona alice dizia no quarto nada sujo
que seu único medo
era morrer
no escuro

afasta-te com teus braços i

começamos em um ponto já limite. na fronteira da minha mente. então, disse-te que saísse, pois não aguentava o seu movimento dos braços. um manifesto próprio e sem sentido do que pareceria estar em luta contra o que se busca. então, disse-te isso, mas pouco influenciou, como continuavas a gesticular como uma pantomima sem lógica, uma língua esperanto de sinais que apenas você conhecia, mas o esperanto não é a língua una, o om da meditação, você pensava: coitado desse mundo não conhece a si mesmo nem à história ocidental antiga, mas tu mesmo não pode recordar do que falaste há poucos dias. talvez querendo representar uma cornucópia da noite, mas voltando sempre só, como o grão de areia revoltoso depois de um dia de praia e vários banhos. como, talvez, um escorpião perdido do ninho que pica uma jovem alma como vingança da própria desatenção ao caminho. então, eu só queria que você se afastasse de mim por minutos pois não aguentava a dimensão dos seus braços a se mexer histericamente, coçar/ moldar cabelo, orelha, tentar estimular algo que ainda não entendo. afasta-te com teus braços quando estes não podem estar contidos. enquanto esses ainda não sabem de sua natureza de alma

madá ii. ou madalena de caravaggio

eu, vista como a madalena de caravaggio
coitada, acossada pelo que não vemos
passiva e lamentosa
pensando sobre os filhos de borges
e o whisk and bowl
que acreditam superar o presente nas multi formas
que não me falam tanto quanto o silêncio dos que estão tristes ou os ágrafos da esquina
e que se encortinam sob uma imagem turva
pois, sim, não se podem mostrar
não se podem revelar

pois ainda não souberam ser

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

hodiernus iii

quando se torna suscetível
à vida mundana
as coincidências aparecem como desespero
aquele último apelo ao mistério

quando se escolhe a vida mundana
e já se conhece o que as almas podem oferecer
o apelo ao mergulho é reincidente
são gritos

quando preferi a vida mundana
eu sabia que nunca a conheceria por mais de um dia
e se há ainda a escolha,
hoje o apelo é meu
devo proceder como sempre quis:

fugindo do fundo do mar,
fugindo do que os poemas falam

quando levo essa vida mundana,
recebo visitas de outras vidas, elas me tocam em pele
elas buscam se reunir ao meu lado
um arroubo de fuga terrena
onde mitigo o que desejo

me enfio numa simples vestimenta
bebo alguns goles d'água
e me rendo
a saber, os tratados que escrevi
quando não os podia falar:
contradição, esquecimento e vestes
onde desfiz meu receptáculo
que se embala com um xale trançado
com nós nas pontas:
as palavras que não pude dizer

o que sobra é a questão filosófica
questionamos ao que possa parecer
mudança de tempo
hoje chove? o que questionamos humanamente ao acaso
a profunda realidade última
hoje chove ou não

para ir à festa em ur
onde abrirão vinhos, os melhores
onde haverão ligações perdidas
e conversas esquecidas
e ao deitar, há um sono que confunde os sons
(há reunião em meu quarto)
e os sonhos que esse sono tenta salvar
são os do tratado, acrescido de espíritos
que em ur ou em outro qualquer lugar
fazem festa em meu quarto