quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

sobre o que nunca vi e vi

nunca vi céu tão bonito
desde auschwitz
que nunca fui
ou desde são luís do maranhão
num sobrado que fui
como o céu do meu último dia no oeste

choveu e me avisaram
"olha que visage bonita"

nunca vi um raio tão de perto
desde camboriú
que já fui
ou desde a queda da caripina
que nunca fui
não me avisaram da visage
mas foi interrompido o batimento
e vi a quase morte num quasar
da nuvem carregada nesse mesmo céu

e
nunca vi um projeto de irrigação
com um nome tão poema
"projeto da morte":

mas isso é outra coisa
coisa que não se quer ver
no oeste

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

tema para a surdez

se não fosse a música eu já teria me ensurdecido
arrumando uma forma de não ouvir
ouvir seria o pior dos sentidos se não houvesse a música
por isso tantas vezes eu já quis ser surda
porque ver é bom, apesar da miopia, astigmatismo, hipermetropia
mas ouvir é fardo, é o fado mais triste
e se fala demais
uma fala distraída afastada devastada
pela distração do complexo ruído que sempre há
eu queria ser surda se não houvesse a música
ato fora do comum é
pegar carona
em que não há narrações de historias trágicas vividas por todos

ontem tinha iolanda,
só uma senhora, 
que falou de seus ossos todos colados
e frágeis 
como os de f. kahlo
e ela tinha anéis iguais aos meus
ela tinha brincos iguais aos meus
e um tom de cabelo igual ao meu

eternamente, iolanda

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

]
costumei agir estranho
desgastando meu dicionário de comoções
para se colocar no poema, além de escorrer
feito água das mãos de um malfeito
com cápsulas concentradas de ômega 3
mas ainda assim, deslizo, quando dá
degenerando conflitos mundiais
e preferindo justificar uma fúria de um gigante cachorro de madame encoleirado
em prol dos pobres ratos em tendas
para fincar essa tal bandeira pesada em terreno limpo
dobrar alguns tecidos e ser tal vinco

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

em dias com a companhia de celosias na janela, ouve-se a história do homem mais triste da cidade como quem diz sobre o homem mais importante da cidade que desenha quadros ou compõe fotografias perfeitas sentado na cabeceira de uma mesa de cozinha sem telas, nanquim ou filmes revelados em quarto escuro
certos dias certificando-me, também, cada vez mais, que o esquecimento é pior que a morte e os jarros tombados dos cemitérios é o que mais me comove post mortem, mais até que as placas de ferro oxidável cujas letras p e r p e t u a e uma numeração são gravadas para mapeamento e orientação e mais até que a saudade
*
todas as enganações pelas gotas de milagres do sono que o homem mais triste da cidade se apropria por acreditar que na vida só se deve fazer a mesma coisa, não se deve provar o que acha que não vai gostar, não se deve gostar de pessoas que não se conhece por achar que não inspira nada da bondade que lhe é familiar, o que é bem pouco, só o fazem dormir
a não compreensão do termo plenitude que acaba amargando a comida e o sangue de um idoso que crê, e nisto amplio a história: são dois os homens mais tristes da cidade, é um outro quadro pintado por ele mesmo e pregado na parede da sala de refeições junto com os retratos de familiares mortos e vivos
*
os dois homens mais tristes da cidade, cuja história confunde os qualificadores tristes e importantes, não podem estar próximos por muito tempo pois o reflexo que se reproduz a cada embate de olhos é um cataclismo, uma convulsão que se passa nas suas entranhas desconhecidas, eles sentem algo que é próximo ao abstratismo chamado amor, ou quase
toda história de vida é bonita mesmo se for de alguém muito feliz que não visita cemitérios 

domingo, 6 de dezembro de 2015

não precisa ter cuidado com meus óculos

continue sonhando com bangalôs
ou indo à sua praça circular onde ninguém frequenta,
o seu prédio de arrumação de ideias
e o quintal de floresta e rio
que eu forçarei à visita

continue falando sobre seus casos

dirija em direção a qualquer canto que constantemente transites

continue não sabendo guardar segredos
antecipe-me

mas sobretudo continue falando e dirigindo num espaço teu
desviando dos buracos velhos conhecidos
infringindo leis de trânsito em conversões proibidas
e expondo todos seus casos
saindo rapidamente da garagem estreita da casa de sua mãe

perambule pelo que te é comum
manuseie o que te é comum, seja seu controle de videogame,
chaves e senhas de consultório

em contrapartida, ofereço-te meus indícios
em um amassar de óculos, prova cabal
em um borrão de pele úmida nas lentes,
em esquecimentos incógnitos pelo quarto
e em músicas e poemas dos outros

sobretudo músicas e poemas dos outros
onde pode haver um espaço de salvação constituído por todos os indícios
de todos os tempos
de lágrimas com sabores diferentes das de desordem ou exaustão

sobre o que não me é possível escrever
onde sempre te encontro
I
considerar toda as possibilidades
do ser e fazer humano
é consagrar-se precocemente
de qualquer jeito e de quase tal
toda contingência

fazer-se de objetiva sua memória
e rememora
rememora
remói
resiste o mundo, então


*
feito olhar os objetos iluminados e não a luz
a perseguição de todas as nuvens que se desfazem hora ou outra
imaginar-se entre o canavial que beira a estrada pro oeste
sob um número de estrelas sempre maior
ao que se tinha conhecimento
e ali descansar

II
o legado da vida mundana é poder olhar
e finalmente se fazer, se pertencer
vem, assim, difícil as palavras
pois se se pode olhar, não se fala
tampouco escreve

milan kundera diz que é escrever,
engana-se: a imortalidade é só ver.