sexta-feira, 24 de junho de 2016

comprando vinho no supermercado e atravessando a baía de guanabara

I
comprando vinho no supermercado
e dando assistência a uma viúva
cujo marido em vida escolhia os que beberiam

ontem, eu escolhi para ela
feito o marido

senti-me morta,
mas como?

:
bebi lambrusco bianco amabile

II
na baía de guanabara cinza segunda-feira
com medo de homem-bomba
e o cheiro ruim da estação de barcas
passando pela ponte rio-niterói e sempre

ei, desencosta desse muro!.

[mas por que sempre isso?
seja da ponte, seja de construções da lapa
e no avião
eu sempre imagino todos em queda


*
atravessando a baía de guanabara como quem bebe lambrusco bianco amabile
nunca gostei de estar no mar,
o marinheiro não regressa, resta

vinhos que não se gosta

sexta-feira, 10 de junho de 2016

lembranças do baldo

dezessete horas reaberto:
lembro-me da noite em que chovia

depois de alguns sambas
do alto do viaduto do baldo interditado
a vista do front:
travessia, libido, inconsciência

lembro-me, ainda,
dos fogos de artifício sempre ouvidos desde que não conhecia o outro fogo
embalados em caixas de papelão
com orientações:
"7 tiros" ou "12 tiros"

na cervical estremecida

da minha cachorra hoje

hoje:
baldo livre

de quem?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

"Tudo está na Bíblia, Lena"
 (Lygia Fagundes Telles)

se tudo está na bíblia
por que escrever?

:
eu gosto de Ver

quinta-feira, 2 de junho de 2016

lendo chaya, a mulher que só tinha o nome 
                    [e o karma sifilítico
sendo exposto a todo esse íntimo
à luz, com pressa de pensar
e descrever o que não posso
ou falando só dos aflitos

tentando escrever o que fosse
lido como música e que me mostrasse      poeta
de sentimentos

[sem imagens
sem conseguir ver além de

baratas,
mas não as lambo,
& cemitérios,
sonho com um red nose na rua do baldo]

mas eu penso
nas unhas da embaladora do supermercado
e como elas devem estar trabalhando

mãos-suspense

feitas de unhas longas,
pintadas com glitter sobre algum tom róseo,
maestras dos usos de durex
tal qual todas que esconderam os brinquedos

e hoje já não conseguem esconder
as sagatibas ouro

quarta-feira, 18 de maio de 2016

o horror ouvir o sotaque
que carrega nas costas a seca de 15 e os campos de concentração
um caminhar sem apuro nas ramas
antes fosse das ramblas, onde tudo acontece

você já imaginou abraçar a criança desconhecida
e perverter a palavra de seu pai?

esse sotaque

carrega esse karma também, pois
quando ele sai do seu estado de origem
passeia pelas ruas de caicó e pelos corredores de um pequeno apartamento no bairro de acampamento
ele apaga a beleza dos cemitérios da cidade
cujas lápides nunca vi noutro canto
com a assinatura em cobre ou banho de ouro
tal qual a pessoa em vida assinava

e fecham-se as portas,
as lápides sem nome

pela liga dada deste sotaque

nunca mais subscrevem

quinta-feira, 12 de maio de 2016

contenda para a musa

mas tu não é musa, porque não se pode forjar essa natureza com essas fotos então tu se inspira em frida kahlo e sua filosofia de autorretrato porque com ela deu certo já que ela pintava o que mais conhecia mas eu duvido, eu acho que não, tu não pode pintar seu sofrimento porque, escute só, histrionia não é sofrimento, tampouco desejo e desconcerto assim sejam, nem chega a pensar a se animalizar, a admitir animal da sociedade porque tu é musa, musa das musas para você mesma que gosta de silêncio, melancolia e pablo neruda, ora, me poupe dessa paz já tão conhecida e que não existe, veja lá, me poupe, pois a paz nunca a paz

quarta-feira, 4 de maio de 2016

tema para a distância

enquanto o glaucoma não ser sintomático
e apenas meu grau aumentar, tendo lentes que o corrige
eu poderei ter minha visão periférica
e, naqueles momentos em que transito ignorando o contato visual direto contigo,
vejo teu olhar acompanhando

porque dentre as coisas observáveis citadas antes
deixei olvidar as que não observo com cautela
as formadas pelos borrões dos limites visuais
quando passeio na sua frente saindo do quarto, indo ao banheiro, indo a outro quarto, falando sozinha e você respeita

quanto mais terei de escrever sobre estradas para poder te olhar nos olhos no dia que precede a partida?

ou quanto mais violarei ferozmente meu lábio superior ante as dezesseis horas, ou as três da madrugada de todo domingo?

falo de estar distraída,
acordar chorando com lembrança de música
e seguir a placa dos bordados finos de caicó achando que chegarei àquele quarto de hotel

e à caipirinha

e...