quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Reflexo intrínseco

(...) Com um olhar num misto de tristeza, aversão e curiosidade ele parava e observava ao redor. Costumava ficar envergonhado com o humor pervo e ácido das pessoas, mas isso foi ficando cada vez mais para trás. Em um passado onde já perdera a identidade e com suas células triplamente regeneradas, morava algo. Algo essencial, simples, puro. Não era de alguém, ou daquilo. Costumamos chamar de medo, e se era isso mesmo, ele o entendia como um sentido de existência. Sabia que vivia somente para superá-lo, ora mais... Como ter medo do medo? Ele é apenas algo abstrato... ora mais, não venha me dizer que você tem.
E assim, como um escorpião, provava do seu próprio veneno. Entretanto, não eram doses letais, um pouco a cada dia e ele degustava desse fel. Resistia fortemente a cada gota que se dissolvia no seu sangue.
Habituou-se ao veneno do, como dizem? Medo, como um entorpecente o qual o fazia perder o sentido. O tal medo é isso, droga lícita que de tanto usar vicia. E enlouquece. Ele acumulou medos, percebe? Doses e mais doses... Não entendo. Talvez ele esteja a me olhar agora, olhou denovo e está na espreita, estão vendo?

Foi esse o instante em que me olhei duas vezes no espelho...

3 comentários:

  1. aaamei a comparação com o escorpião!
    novamente estou aqui sendo redundante ao dizer que adoro os seus textos...
    rs queria ter essa 'mágica', a qual faz com que os seus temas pareçam tão simples (os quais não são ;x)

    mas é a verdade, daaalmaz!
    love ya!

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  2. Qual o problema com o humor pervo e ácido das pessoas?

    s2

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  3. gosto desse estilo narrativo, de como ele se mistura com o poético, e de como ele se parece tanto com o espelho.

    é interessante como vejo, ouço
    falo e penso através dessa arte

    como falam, vêem
    pensam e ouvem dessa arte

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