sábado, 7 de fevereiro de 2015

afasta-te com teus braços i

começamos em um ponto já limite. na fronteira da minha mente. então, disse-te que saísse, pois não aguentava o seu movimento dos braços. um manifesto próprio e sem sentido do que pareceria estar em luta contra o que se busca. então, disse-te isso, mas pouco influenciou, como continuavas a gesticular como uma pantomima sem lógica, uma língua esperanto de sinais que apenas você conhecia, mas o esperanto não é a língua una, o om da meditação, você pensava: coitado desse mundo não conhece a si mesmo nem à história ocidental antiga, mas tu mesmo não pode recordar do que falaste há poucos dias. talvez querendo representar uma cornucópia da noite, mas voltando sempre só, como o grão de areia revoltoso depois de um dia de praia e vários banhos. como, talvez, um escorpião perdido do ninho que pica uma jovem alma como vingança da própria desatenção ao caminho. então, eu só queria que você se afastasse de mim por minutos pois não aguentava a dimensão dos seus braços a se mexer histericamente, coçar/ moldar cabelo, orelha, tentar estimular algo que ainda não entendo. afasta-te com teus braços quando estes não podem estar contidos. enquanto esses ainda não sabem de sua natureza de alma

madá ii. ou madalena de caravaggio

eu, vista como a madalena de caravaggio
coitada, acossada pelo que não vemos
passiva e lamentosa
pensando sobre os filhos de borges
e o whisk and bowl
que acreditam superar o presente nas multi formas
que não me falam tanto quanto o silêncio dos que estão tristes ou os ágrafos da esquina
e que se encortinam sob uma imagem turva
pois, sim, não se podem mostrar
não se podem revelar

pois ainda não souberam ser

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

hodiernus iii

quando se torna suscetível
à vida mundana
as coincidências aparecem como desespero
aquele último apelo ao mistério

quando se escolhe a vida mundana
e já se conhece o que as almas podem oferecer
o apelo ao mergulho é reincidente
são gritos

quando preferi a vida mundana
eu sabia que nunca a conheceria por mais de um dia
e se há ainda a escolha,
hoje o apelo é meu
devo proceder como sempre quis:

fugindo do fundo do mar,
fugindo do que os poemas falam

quando levo essa vida mundana,
recebo visitas de outras vidas, elas me tocam em pele
elas buscam se reunir ao meu lado
um arroubo de fuga terrena
onde mitigo o que desejo

me enfio numa simples vestimenta
bebo alguns goles d'água
e me rendo
a saber, os tratados que escrevi
quando não os podia falar:
contradição, esquecimento e vestes
onde desfiz meu receptáculo
que se embala com um xale trançado
com nós nas pontas:
as palavras que não pude dizer

o que sobra é a questão filosófica
questionamos ao que possa parecer
mudança de tempo
hoje chove? o que questionamos humanamente ao acaso
a profunda realidade última
hoje chove ou não

para ir à festa em ur
onde abrirão vinhos, os melhores
onde haverão ligações perdidas
e conversas esquecidas
e ao deitar, há um sono que confunde os sons
(há reunião em meu quarto)
e os sonhos que esse sono tenta salvar
são os do tratado, acrescido de espíritos
que em ur ou em outro qualquer lugar
fazem festa em meu quarto

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

avançando aos solavancos
só se ouve o ruído das coisas
atravessadas à distância

enquanto houve caminho
me inscreviam
um completo rodoanel
circundando meu corpo

no entanto,
sou toda uma evasão de moradias
e mesmo que assim seja
há um usufruto
um direito alheio
em governar para mim
as três vontades básicas
os três objetos da bolsa
e a teoria geral das coisas:
usufruto à quintessência

[fim do toque de recolher
hora de ancorar o estado inértico
voltar a sonhar com o simples recato
e torcer que aguaceiro nenhum
leve a resposta aos físicos]

eis a supernova
eis a verdade diluída
um caminho trôpego para intuição 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

oferenda

o fenômeno da fome
da mãe dos que nascem peixes
reduto de colo
recato de cor escura
um lar: todo negro

mania de anaeróbio
que costumo levar

o que costumo soltar:
o canto que apenas uns desatentos
uns passantes

um canto no vácuo

coágulo de ar:
três minutos de morte
brilho azul das vestes
odoyá
como ouvir o adágio
das cristas e vales
no livre-arbítrio
onde a alma fala
(minha glândula pineal
órgão vestigial
ou rasgada a palma, pedra de sal)

fala sobre a orientação celeste
lobo, centauro, peixe austral

não fala nada,
afinal